terça-feira, 20 de dezembro de 2011

FC BARCELONA - UMA RESPOSTA HISTÓRICA DA BURGUESIA CATALÃ

O extraordinário Lionel Messi: um argentino é o símbolo da "fúria" catalã

Mais do que a excelência do seu futebol, o FC Barcelona é uma resposta histórica da Catalunha  para Espanha

A Catalunha, desde o século XV, firmava-se como um dos principais centros de desenvolvimento da Espanha, na História Moderna. Ligada ao reino de Aragão, os catalães abriram seu caminho externo, usando-se de privilegiada posição geográfica ao centro do Mar Mediterrâneo, indo até Atenas, a Sicília e a Sardenha, o que lhe possibilitou o desenvolvimento de uma poderosa elite de comerciantes e capitalistas. Tal postulado lhe permitiu a relação global com todas as influências mercantis do seu tempo, o que lhe dava no século XIX, o status de quarta potência de fabricação têxtil do planeta, ficando atrás apenas de Estados Unidos, Inglaterra e França (o que em nada faz estranhar a fundação do FC Barcelona, em 1899 pelo empresário protestante suíço Joan Gamper, com o apoio de um punhado de “renegados” ingleses). Evidentemente que o desenvolvimento industrial trás consigo o surgimento das classes sociais vinculadas ao processo, como os operários e sua organização em ligas, com os mais variados fundamentos, desde o anarquismo, passando pelo comunismo e separatismo. No entanto, o domínio político do país centrado em Madrid, cujo poder estava nas mãos dos influentes e determinantes proprietários de terras castelhanos, logo causaria um choque com os comerciantes catalães. A busca de uma cultura e língua “espanholas”, levava os castelhanos a cobrar do governo central a imposição destas condições, tendo como fundo o protecionismo da agricultura em relação a indústria (conflitos fundamentais das elites no mundo contemporaneo). Atacando então o posicionamento “chucro” da aristocracia madrilenha, a burguesia catalã investiu no mecenato, que propiciou a exposição de artistas genialmente grandes como Galdí e Miró.

Tinha um(s) general (is), no meio do caminho

Apoiado pelo rei, o general Miguel Primo de Rivera desfere um golpe e 1923. De imediato, proíbe a língua catalã e o uso público do idioma local. Logo, o escudo do clube que levava as cores nacionais e a cruz de São Jordi, padroeiro da Catalunha, passam a ser uma referência “ingrata” a “nova ordem”: após a torcida vaiar o hino nacional em 1925, o Camp Nou, estádio do clube catalão, foi fechado por seis meses e seus dirigentes penalizados com multas. Gamper, fundador do Barcelona, foi “convidado” a se retirar da Espanha (cometendo suicídio em 1930, após o Crack da Bolsa de New York). Rivera renunciou e os poucos anos de uma conturbada república, deram lugar ao fascismo absoluto de Francisco Franco, cujo ódio pelos catalães desconhecia fronteiras. Segundo o escritor espanhol Manoel Vasquez Montalban, citado no livro Como o futebol explica o mundo, de Franklin Foer1

As tropas de ocupação de Franco entraram na cidade. A quarta organização a ser expurgada, depois de comunistas, anarquistas e separatistas era o Barcelona Footbal Club”.

Dentre outros resultados das empreitadas de Franco, o presidente do Barcelona, Josep Sunyol, de orientação política esquerdista, foi assassinado a tiros pela guarda franquista e o prédio de troféus do clube foi bombardeado. Posteriormente, na busca da destruição da identidade clubística, obrigou a mudança do nome para o castelhano, ficando Club de Footbal Barcelona e a bandeira catalã foi excluída do escudo do time. A “gota d'água” deste período se deu em 1943, quando alguns jogadores do Barcelona voltaram a defender o clube após receber a “anistia”, nas vésperas de um jogo contra o Real Madrid,ssão visitados no vestiário,  por Franco em pessoa, lembrando-os que a “generosidade do regime” é que os possibilitava a “falta de patriotismo” de outros tempos. O jogo terminou 11 x 1 para o Real! Até 1953, o Barcelona sofreu absoluta influência da ditadura franquista, tendo inclusive a presidência do clube, indicada pelo goveno.

A Máquina Barcelona – Uma resposta burguesa para a "velha" Espanha 

Mas é necessário esclarecer que, independente dos problemas políticos em sua história, o Barça jamais deixou de ser um time vencedor e que investia na formação de seu esquadrão. A forte identificação do nacionalismo catalão com o clube, como forma de resistência, também não configurou necessariamente a incorporação de uma luta combativa, a exemplo dos bascos. Não está sendo discutido aqui se Franco conseguiu ou não controlar os catalães, resumindo seu grito manifesto ao bradar de torcedores dentro do estádio, mas o fato é que os incentivos econômicos (subsídios e tarifas) dados pelo governo durante as décadas de 50 e 60, trouxeram novo fôlego às indústrias, gerou milhares de empregos e apaziguou os ânimos, reduzindo também o sentimento de repressão, afastando a memória dos massacres. Na tese de Franklin Foer, o Barça ajudou a “manter os catalães num estado de equilíbrio confortável”, após tensões iniciais. Acho isso pouco e superficial, mas entendo que as elites burguesas da Catalunha, deram sua resposta para a Espanha: consolidaram o clube como uma marca multinacional, talvez a maior no mundo esportivo, dos últimos 40 anos. Tempo este o mesmo que usaram para o investimento no clube para a formação de uma base de jogadores e atletas, pinçados a dedo nas mais diversas regiões do planeta, mas com um olhar muito especial para a própria Espanha. Também o investimento no desenvolvimento técnico de todos os departamentos envolvidos no esporte, desde a fisiologia ao desempenho efetivo do jogador dentro de campo (aliás, são estes dois dos principais pontos de partida do Imperialismo Europeu, no século XIX: exploração de matérias-primas e investimento em tecnologia/técnicas). Não tiveram medo de copiar e se apropriar das melhores escolas de futebol do planeta, como a Holanda dos anos 70, ou o Brasil até 1982 (última grande seleção brasileira). Conseguiram então a base da seleção espanhola, que venceu a primeira Copa do Mundo para o país em 2010. Esperava-se que esta conquista, “abasteceria” de ânimo o país, o que não aconteceu. A crise permanece como uma das piores de sua história. Isso necessariamente não acarreta mudanças e, ao contrário, ressuscita a extrema direita que, nas eleições de 2011, chegaram novamente ao poder, com sua tradicional proposta de “zona de conforto”. O fato é que o Barcelona é responsável por uma revolução no futebol nos níveis da Revolução Industrial Inglesa, do século XVII e, quem não acompanhar seus passos, assistirá de camarote sua hegemonia. Quantos as elites da Catalunha, estão vingadas...  mas não estão livres da Espanha.

1 - FOER, Franklin. Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. pp- 176. Observação: Este livro foi a base da pesquisa sobre o tema.

VENDO LIVROS NA ESTANTE VIRTUAL - CONFIRA!